O período de final de ano costuma trazer sentimentos mistos: enquanto muitos celebram, outros enfrentam momentos de incerteza e vulnerabilidade.
Essa época também expõe dificuldades nos serviços de saúde, especialmente quando o assunto é saúde mental. A partir de uma vivência durante a residência médica, surge uma reflexão sobre a complexidade da alta hospitalar e o impacto que ela tem sobre pacientes e famílias.
A experiência na enfermaria
Durante o segundo ano da residência médica, vivi novamente a experiência de um estágio em enfermaria próximo ao final do ano. Dessa vez, algo me chamou bastante atenção: a dificuldade em realizar altas hospitalares. Percebi que, nesse período, muitos familiares apresentavam resistência em receber o paciente em casa, o que não costumava acontecer em outras épocas.
Quando comunicávamos que o paciente estava pronto para deixar o hospital, surgiam empecilhos e hesitações, especialmente nas semanas que antecedem as festas de fim de ano. Essa situação, repetida por dois anos consecutivos, despertou em mim uma série de reflexões sobre o que realmente está por trás dessa resistência.
A vulnerabilidade após a alta
Durante a pandemia, muitos familiares sonhavam com o momento da alta hospitalar. No entanto, a realidade mostrou-se mais complexa. A rede de saúde mental, muitas vezes sobrecarregada ou com funcionamento reduzido, pode deixar tanto os pacientes quanto as famílias em situação de vulnerabilidade.
Não se trata de falta de vontade por parte dos profissionais, mas de limitações estruturais e logísticas que afetam a continuidade do cuidado. Quando os serviços ficam reduzidos devido ao recesso de final de ano, as famílias temem não ter apoio suficiente caso algo aconteça. Essa insegurança pode gerar angústia e dificultar o processo de reintegração do paciente ao convívio doméstico.
A importância da educação em saúde mental
A experiência reforça como é fundamental valorizar e fortalecer o sistema público de saúde, garantindo que ele seja mais acessível e eficiente ao longo de todo o ano. Além disso, é essencial investir em educação em saúde mental, tanto para pacientes quanto para familiares.
Muitos ainda enfrentam preconceitos, desinformação e insegurança em relação ao cuidado psicológico e psiquiátrico. Promover informação, diálogo e acolhimento é o caminho para que o paciente se sinta amparado e a família confiante em participar do processo de recuperação.
Um olhar humano e comprometido com o cuidado
Reflexões como essa evidenciam a necessidade de olhar para a saúde mental de forma mais ampla, humana e contínua. O psiquiatra Tarcísio Fanha Dornelles tem como propósito justamente esse, aproximar a psiquiatria das pessoas, valorizar a escuta e contribuir para que pacientes e familiares se sintam acolhidos em todas as etapas do cuidado.